Educação deve incutir nos jovens capacidade de imaginar o futuro

Em um tempo em que o futuro parece cada vez mais associado a crises climáticas, transformações tecnológicas, conflitos e incertezas, qual deve ser o papel da educação? Para especialistas reunidos no Brasil Futures Forum (BFF), realizado nos dias 22, 23 e 24 de agosto no Rio de Janeiro, a escola precisa ir além da preparação de crianças e adolescentes para um mundo que supostamente já está desenhado. Um de seus desafios é justamente devolver aos jovens a possibilidade de imaginar outros futuros, e perceber que podem participar de sua construção.

A discussão esteve no centro do painel "O Papel da Educação na Reconstrução do Imaginário Social: Como ampliar nossa capacidade de imaginar, aprender e ensinar futuros em tempos de incerteza?", realizado na última segunda-feira (24), no Museu do Amanhã. Mediado por Rosa Alegria, futurista e pioneira em estudos do futuro no Brasil, o encontro partiu de uma provocação: a sociedade vive não apenas uma sucessão de crises, mas também uma crise do imaginário, caracterizada pela dificuldade de projetar possibilidades para além dos problemas do presente.

"O futuro não existe, mas ele passa a existir quando é criado. E, quando é criado, ele vira presente", afirmou Rosa. Para ela, o modelo educacional ainda está excessivamente estruturado em torno daquilo que já é conhecido. "A gente aprende na escola aquilo que é provado, aquilo que é tangível, aquilo que é previsível e linear. O mundo não é mais linear, o mundo não é mais previsível."

A futurista trouxe para o debate resultados do estudo Da Futurofobia à Futurotopia, realizado com quase 700 jovens brasileiros. Segundo os dados apresentados por ela, 62% enxergam o futuro como uma ameaça e 80% o relacionam à ansiedade. Há, no entanto, um dado que aponta para outra direção: quase 90% acreditam que é possível aprender a imaginar. É justamente nessa brecha que, segundo Rosa, a educação pode atuar. Se imaginar futuros é uma capacidade que pode ser desenvolvida, escolas e educadores passam a ter um papel importante não apenas na transmissão de conhecimentos, mas na construção de repertório, autonomia e capacidade de ação diante da incerteza.

Marco Antonio Andreazzi, médico sanitarista e gerente de pesquisas especiais do IBGE, responsável pela Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE), reforçou que pensar o futuro das novas gerações exige, primeiro, compreender as condições em que elas vivem hoje. Os dados mais relevantes da PeNSE 2024 (Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar), divulgada pelo IBGE, mostram um panorama crítico sobre a saúde mental, o bem-estar e os hábitos de adolescentes entre 13 e 17 anos no Brasil.

Andreazza chamou atenção especialmente para indicadores que revelam sofrimento entre meninas e para a parcela de jovens que manifesta uma percepção negativa sobre a própria vida. Mas ressaltou que os números não podem ser tratados apenas como uma questão individual ou restrita à escola. "Qual a perspectiva que pode ter um jovem que acha que a vida não vale a pena? Isso tem que mudar, é muito trágico. É necessária intervenção. Intervenção coletiva."

O pesquisador também apontou para uma contradição que ajuda a compreender a dificuldade de muitos jovens em projetar o amanhã: estudar mais nem sempre tem se traduzido em melhores oportunidades de trabalho, renda e mobilidade social. Quando a promessa de que a educação levará necessariamente a uma vida melhor deixa de se concretizar, a própria capacidade de projetar o futuro pode ser afetada.

Não existe uma única juventude

Se os dados ajudam a dimensionar o problema, Danielle Ferreira, psicóloga clínica e institucional, escritora e consultora em diversidade e inclusão, chamou atenção para outro ponto: "É importante a gente lembrar, quando se faz esse debate, que a juventude brasileira não é um bloco homogêneo. Quando nós falamos de juventude, nós estamos falando de juventudes, de uma pluralidade."

Segundo Danielle, fatores como raça, classe, gênero, sexualidade e território interferem diretamente nas possibilidades de projetar o amanhã. "A realidade brasileira distribui a possibilidade de esperança a partir desses recortes, onde para uns é possível sonhar e imaginar e, para outros, isso é uma impossibilidade imposta." A psicóloga lembrou que alguns jovens crescem cercados por direitos, referências e perspectivas, enquanto outros convivem desde cedo com violência e insegurança. "A gente tem que se perguntar que sociedade é essa que faz com que, para muitos jovens, sonhar não seja uma possibilidade."

Imaginar o futuro também exige memória

Outro eixo da discussão colocou em xeque a ideia de que pensar o futuro significa simplesmente olhar para frente. "É possível imaginar sem memória? É possível criar sem referência?", questionou Danielle. Nesse sentido, o desafio colocado para a educação é também cultural. Significa ampliar repertórios, criar espaços de pertencimento e permitir que crianças e adolescentes reconheçam diferentes possibilidades de existência e de organização da sociedade.

Danielle destacou ainda uma aparente contradição contemporânea: nunca houve tanto acesso à informação, mas isso não necessariamente produz memória, vínculo ou capacidade de imaginar coletivamente. "Nós precisamos da relação, nós precisamos do outro." A reflexão dialoga com a proposta central do painel: diante de um mundo imprevisível, talvez a educação precise abandonar a pretensão de ensinar aos jovens exatamente como será o futuro.

Nesse contexto, experiências internacionais também podem ampliar essa capacidade de imaginar outros futuros. Estudar fora significa entrar em contato com diferentes formas de aprender, viver, organizar a sociedade e responder a desafios comuns. Mais do que acrescentar uma dimensão internacional ao currículo, a experiência em outro país pode ampliar repertórios, estimular a autonomia e mostrar ao estudante, independentemente de sua idade, que existem múltiplas maneiras de construir trajetórias, comunidades e soluções. Em um mundo marcado pela incerteza, conhecer outras realidades pode ser justamente uma forma de perceber que o futuro não está dado e que há diferentes possibilidades de participar de sua construção.

Imaginar outros futuros depende também de ampliar referências. Programas de intercâmbio virtual e de internacionalização em casa, iniciativas de formação de professores com uma perspectiva internacional e projetos de educação bilíngue na rede pública podem aproximar crianças, jovens e professores de outras culturas, línguas e formas de compreender o mundo. Ao levar essas experiências para dentro das escolas e torná-las acessíveis a estudantes e professores de diferentes contextos, a internacionalização pode contribuir justamente para ampliar repertórios e oferecer ferramentas para que eles consigam imaginar novas possibilidades, questionar futuros apresentados como inevitáveis e reconhecer a própria capacidade de interferir no que ainda está por vir.

(Fonte: O Estado de São Paulo)



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